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Março de 2007 |
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Cheguei ao Rio de Janeiro em 1982. Mais precisamente em fevereiro, logo após o carnaval. Tanto me aconteceu na vida até esse dia. Tantas idas e vindas e tantas felicidades. Não sou dada a falar de tristezas. Eu esqueço delas. Chegar ao Rio de Janeiro foi um dos maiores acontecimentos de minha vida, senão o maior. Vinha de Belo Horizonte e, conforme o ônibus descia a serra de Petrópolis, eu ficava olhando na janela com avidez para enxergar o mar. Nada via. Entramos na avenida Brasil e que avenida feia. Hoje ela é mais simpática, mas naquele tempo era horrível e eu me perguntava: será mesmo que cheguei ao Rio? Que lugar horrível. Muitos e muitos ferros-velhos ou então vendedores de peças usadas de carro. O ônibus corria por aquela avenida e eu cada vez mais decepcionada com o que via. Nada de praia, nada de Pão de Açúcar...
Rodoviária do Rio. Desço do ônibus lá pelas sete da noite. Um calor imenso e que rodoviária pequena. Me pareceu menor que a de Belo Horizonte. Feia e suja. Procurei um telefone público. Até hoje, quando vou à rodoviária, me lembro daquele histórico dia da minha vida e do momento em que, com um estranhamento imenso por tudo que via, encontrei uma fileira de telefones públicos. Liguei para a minha amiga que morava no Rio e tinha me convidado para passar uns dias na cidade. Claro que ela morava em Copacabana e claro que morava na rua Prado Júnior (todas as putas que moram em Copa moram lá). Anotei o endereço e saí para a rua abafada e barulhenta.
O táxi (todos amarelos) tinha um motorista muito conversador e eu pensava: acho que agora de verdade cheguei ao Rio, porque esse cara é tão simpático como sei que são os cariocas. Conversei muito com o cara e claro que ele me deu uma volta. Fez um caminho longínquo para chegar a Copa e eu contava minha vida, falava da minha felicidade de ter chegado ao Rio, de como achei a Brasil uma avenida feia. Por que ainda não vi a praia? E o cara ria muito das minhas caipirices. Uma mulher de 31 anos completamente babaca e completamente paulistana da periferia, apesar de tudo! Tudo isso me custou uma fortuna!
Copacabana, finalmente! Minha amiga, muito feliz por me receber no seu pequeníssimo conjugado, me esperava com o jantar pronto. Conversamos muito naquela noite sobre nossa vida em Belo Horizonte, sobre as cafetinas da zona, sobre o meu namorado com nome sugestivo, Benvindo, e sobre aquela imensidão de homens. Muitos clientes. É, sem dúvida nenhuma, a cidade que mais tem clientes para putas no Brasil. Deixei tudo lá: a maioria de minhas roupas, um terreno comprado e com escritura, e os planos de lá morar por toda a vida. Mas não importa; estava no Rio para passar alguns dias, conhecer a cidade e voltar para a minha vida na Zona Boêmia e para a concretização do plano de construir uma casa.
Mas agora é tempo de esquecer um pouco todos os compromissos mineiros e curtir a cidade que sempre sonhei conhecer. Estava encafifada por ainda não ter visto a praia e comentei com Suzana. Ela imediatamente se levantou e falou: “Não seja por isso, vamos até lá”. Era meia-noite quando vi aquele mar e aquela curva belíssima da praia do Leme ao Forte, até hoje a praia que mais amo. Naquele tempo ainda não tinha a forte iluminação de hoje e eu via o branco das ondas quebrando, o cheiro de maresia, as pessoas nos bares, o calçadão de Copa. Que maravilha! Não é que eu não conhecia praia. Quando era menina minha mãe levava a mim e a minha irmã em excursões do bairro para Santos, e minha tia tinha uma casa de praia em Itanhaém, no litoral sul de São Paulo. Mas é muito diferente. É outro mar, outra praia, outro cheiro, outra vida. Olhando para o mar, naquela noite eu nem sequer imaginava tudo o que estava por vir, tudo o que aconteceria na minha vida a partir de então.
Não consegui dormir direito naquela noite. Pela manhã, muito cedo, vesti meu biquíni e fui à praia. Nunca me esqueço que eram seis horas da manhã e já estava muito calor e muitas pessoas já estavam na praia. Olhando o mar me prometi comprar um biquíni novo ainda naquele dia. Inadmissível ir à praia do Leme com o biquíni surradinho com o qual trabalhava todos os dias no hotel de Belo Horizonte. Nada de pensar em trabalho! Estou na praia e vou me bronzear e olhar as pessoas. Estou sozinha. Suzana ficou dormindo, já que depois que voltamos para casa, na noite anterior, ela foi trabalhar. Ela é uma negra muito bonita e batalha na boate aqui perto. Eu a conheci em Belo Horizonte e batalhamos no mesmo hotel por um bom tempo, até ela voltar para o Rio. Ela é carioca de Madureira, do morro da Serrinha. Batalha há muitos anos, sempre em Copa, em algumas ocasiões em BH.
Suzana nunca estava comigo. Nunca ia à praia, nem ao bar, nem nada. Só trabalho e trabalho pela madrugada adentro. Quando eu interpelava Suzana sobre sua febre de trabalho, ela me dizia: “Ora, Gabi, nós já somos chamadas de putas sem-vergonha todos os dias, as pessoas não gostam do que fazemos, então, pelo menos, temos que ganhar dinheiro e muito dinheiro. Levar o nome e ainda ganhar migalhas é ser muito burra. Meu divertimento é ir para a casa da minha mãe, levar um dinheirinho para a família, almoçar e jogar baralho”.
Então, em um domingo de muito calor, fui com ela conhecer sua família.
Trecho inédito do livro que a
colunista escreve para a Editora Objetiva
