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O Cemitério Israelita de Inhaúma, em fotos do acervo pessoal de Beatriz Kusnhir


Cemitério das polacas é tombado pela Prefeitura do Rio

Historiadora judia incentiva comunidade a dar, finalmente, "uma resposta digna ao passado"

25/9/2007

O Cemitério Israelita de Inhaúma está tombado desde ontem pela Prefeitura do Rio. Nele estão sepultadas as famosas polacas, prostitutas judias da Europa Oriental que foram segregadas e estigmatizadas pela comunidade judaica. Por isso mesmo, fundaram em 1906 a Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita, tornando-se as primeiras prostitutas a se organizar como categoria e criando um cemitério onde pudessem ser enterradas dignamente. Uma parte da comunidade judaica tentou apagar – e até destruir - essa história, mas ela vive. A principal responsável por isso é Beatriz Kushnir, também judia e historiadora. E são dela as palavras que seguem e melhor explicam o sentido deste ato: "uma resposta digna ao passado"

Momento de transformação

O Decreto publicado no Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro de hoje [24/9/2007] é a garantia legal que o Cemitério Israelita de Inhaúma será preservado de forma intacta. Não se farão alterações arquitetônicas, nem promoverão novos enterros sem a autorização expressa do Patrimônio Cultural da Prefeitura do Rio. O Cemitério Israelita de Inhaúma será resguardado enquanto o espaço de sepultamento dos sócios e sócias da Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita – as famosas “polacas”.

Dói-me muito saber que não fomos capazes de resolver a questão internamente e que o poder público precisou agir. No último domingo, dia 16/9/2007, entre o Rosh Hashaná e Yom Kippur, os cemitérios judaicos pelo mundo recebem visitantes. Como faço há muitos anos, queria ir à Inhaúma acender velas e rezar um Kadish. O cemitério está trancado e preciso fazer um balé de negociações para garantir a minha entrada. Ninguém mais além de mim e de meus amigos foram até lá. Pessoas que desconhecem a história de quem está ali dizem se eu posso isso ou aquilo...

Assustei-me com o estado de abandono do lugar, das lápides pintadas com cal e numeradas com colorjet preta, mesmo que existam informações em sua base. Cresce o número de sepulturas sem identificação, mesmo que eu venha constantemente dizendo onde está o documento que recoloca as identidades nos túmulos...

Se Yom Kippur é uma permissão religiosa e cultural que nos concedemos para fazer um balanço de nossas vidas, expurgar nossos erros e zerar trajetórias, que esse Decreto, no primeiro dia útil depois de feriado sagrado, seja encarado como a possibilidade de transformação. Kippur é um exercício de compaixão, de compartilhar o sentimento.

Que comecemos o ano de 5768 aprendendo com o exemplo da Chevra Kadisha de São Paulo, que restaurou e cuida do Cemitério Israelita de Cubatão e das lápides no Butantã. Que possamos finalmente dar uma resposta digna ao passado, não nos envergonhando dele e nem tentando, pelo abandono, destruí-lo. Recoloquemos as lápides de Inhaúma e tornemos aquele cemitério um lugar aprazível. Respeitemos o esforço descomunal dos que o fundaram e o mantiveram e, principalmente, dos 797 corpos ali sepultados.

Coloco-me, como sempre o fiz, à disposição para ajudar a realizar tal tarefa.

Um abraço,

Beatriz Kushnir

Historiadora e diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, autora do livro "Baile de Máscaras - Mulheres judias e prostituição: As polacas e suas associações de ajuda mútua", da Editora Imago.

Leia também:

http://biakushnir.wordpress.com

http://polacas.blogspot.com/


 

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