Plantão


“Não somos mais Genis”

Gabriela Leite

27/6/2007

Escrever sobre o crime desses cinco rapazes é uma tarefa muito dolorida. Na verdade são dois crimes: um totalmente objetivo, que é bater numa mulher que está no ponto do ônibus às cinco da manhã, e por que estava esperando o ônibus tão cedo? Ora, porque todo mundo que se usa do SUS para suas consultas médicas tem sempre que madrugar para conseguir uma ficha de atendimento. Uma realidade do atendimento ao cidadão neste país, que com certeza esses rapazes criminosos não sabem porque jamais sequer imaginaram enfrentar uma fila do atendimento médico público: coisa de pobre.

O outro crime é subjetivo: “...a gente pensou que ela era uma prostituta...” Simples assim e trágico assim. Um crime hediondo que mostra o que somos no pensamento deles: Genis da vida que somente prestamos para apanhar e cuspir, e quando o zepelim chega lembramos que ela pode ser útil para salvar a cidade e depois voltar a ser espancada e cuspida. Apenas Genis, nada mais do que isso.

Só que não somos mais Genis. Por tudo isso, um dia assumimos enfrentar o estigma e o preconceito que carregamos, e olhamos nos olhos da sociedade e dissemos que existimos e que somos pessoas, mulheres, cidadãs desse país tão sofrido e tão desigual. Queremos lutar junto com a Sirley e com todas as pessoas sadias dessa sociedade contra tanta perversidade. Também vamos processar esses criminosos confessos por danos morais e mais uma vez repetiremos: somos mulheres trabalhadoras e exigimos respeito. E quando eles forem a julgamento para pagarem pelo crime contra a Sirley, queremos estar no tribunal junto com ela mostrando com os nossos rostos, que um dia foram invisíveis e hoje não são mais, a nossa indignação.

Sempre vivemos a violência: quando nossas famílias não nos aceitam, quando somos maltratadas pela polícia, quando somos consideradas a escória da sociedade e vivemos a violência física com mais assiduidade do que possa pensar a nossa vã filosofia. Em Ribeirão Preto, um rapaz, filho de usineiro, agarrou uma prostituta que estava na esquina, amarrou-a atrás em seu carro e arrancou, arrastando a moça por mais de dez quilômetros. Quando ele finalmente soltou a corda, nem pele mais existia no corpo de uma mulher de 22 anos, que morreu só porque era uma prostituta. Em Nova Friburgo, um policial parou em um posto de gasolina onde as prostitutas faziam ponto e começou a atirar: matou uma mulher grávida e deixou outra paraplégica. A sobrevivente denunciou e o policial foi a julgamento: foi absolvido porque o juiz entendeu que ela era prostituta. A promotora pública que exigia um novo julgamento foi transferida para Nova Iguaçu.

O crime bárbaro desse momento fez com que a sociedade abrisse os olhos para tanta perversidade. A solidariedade que estamos recebendo é imensa: e-mails, cartas de leitores nos jornais, repercussão na imprensa e o apoio formal da OAB-RJ. Como escrevi anteriormente, vamos entrar na Justiça com um processo contra eles e estamos ao lado da Sirley e de sua família para o que der e vier. Quem sabe um dia viveremos sem essa imensa dor.



 

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