Plantão


Lula critica hipocrisia e incentiva sociedade a falar de sexo

Presidente diz que educação sexual evita Aids e gravidez precoce e garante que “quase todo mundo” gosta de transar

Flavio Lenz

7/3/2007

Ao lançar no Rio um plano de combate à Aids entre mulheres, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva responsabilizou a hipocrisia pela gravidez precoce e pela epidemia da Aids, e propôs que a sociedade fale abertamente de sexo na escola, em casa e nos meios de comunicação. Lula sugeriu à ministra Nilcéia Freire, da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, que aproveite o Dia Internacional da Mulher de 2008 para lançar o “Dia de Combate à Hipocrisia, que está estabelecida na cabeça de todos nós”.

“Hipocrisia porque muitas vezes deixamos de debater os temas como eles são por puro preconceito, por ‘minha mãe não gosta’, ‘meu pai não gosta’, ‘a igreja não gosta’. O resultado é que 30% das meninas entre 15 e 17 anos que estão fora da escola é porque tiveram filhos, pois não houve educação sexual dentro de casa, na escola, na televisão, no rádio”, discursou o presidente para representantes de movimentos sociais, na Cidade do Samba, Zona Portuária do Rio.

Sem paletó e gravata por causa do calor, Lula falou do “crescimento das pessoas convivendo com Aids”, revelando que a ministra Nilcéia Freire o havia orientado sobre a incorreção da palavra “aidético”. Mas ele tropeçou na própria língua ao repetir, como quem mostra ter aprendido a lição, que há um “crescimento das pessoas convivendo com... aidéticos”.

Velhos tempos

O presidente lembrou “do tempo em que se dizia que Aids só pega em quem é homossexual, em quem usa drogas, em homens que traem as mulheres”, evitando citar diretamente as “prostitutas”, também responsabilizadas pela transmissão da epidemia, apesar de criticar a hipocrisia.

Deslizes à parte, retomou o contundente discurso afirmando que o governo está disposto a “tomar todas as medidas para evitar a Aids, sobretudo agora que está crescendo entre as mulheres heterossexuais”. E arrematou: “A Aids não é doença do vizinho ou da vizinha, é uma doença de todos nós”.

"Quase todo mundo gosta de sexo"

Talvez nunca tão mencionados numa cerimônia oficial, sexo e educação sexual voltaram a ser tratados por Lula: “Não tem como o pai ou a mãe dizer que ‘o meu filho só vai fazer sexo quando eu quiser’, porque sexo quase todo mundo gosta e é uma necessidade orgânica, da espécie humana”.

Assim, continuou o presidente, “como não temos controle disso, precisamos educar: no mesmo momento em que a criança estiver aprendendo que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, ela deve aprender noções do próprio corpo”.

Prostituta elogia presidente

Fundadora da Rede Brasileira de Prostitutas, Gabriela Leite elogiou a iniciativa do presidente de combater a hipocrisia e de falar e incentivar a sociedade a falar de sexo. “É um avanço danado. Faz parte da vida, todo mundo transa. É bom falar mais de sexo, de sexualidade. Só tenho medo de educação sexual obrigatória na escola, de que não seja aberta, nunca se sabe o que os professores, incluindo os católicos, vão falar para os alunos”, disse. “Dependeria de uma ação integrada no governo, com vários ministérios, de um programa em que professores e diretores passassem por capacitações. Mesmo assim não se sabe o que o professor vai fazer”.

Sobre o presidente ter evitado citar as prostitutas, Gabriela disse que Lula “também deve ter ficado com medo dos preconceitos que ele denuncia”. E completou: “Tanto que ele deu uma paradinha, e aí falou em homem que trai – ele ia falar de prostituta, acho que ele ia”.

Vasectomia

A cerimônia de lançamento do Plano Integrado de Enfrentamento da Feminização da Epidemia de Aids e outras DST contou com a presença de vários ministros, atletas, paratletas e do governador Sérgio Cabral Filho. Ele disse que “o país ainda é machista” e desafiou homens com filhos a fazerem vasectomia, como ele próprio. “Eu fiz e posso garantir que não muda nada”, afirmou, trocando sorrisos cúmplices com a mulher, Adriana Ancelmo, sentada no palco com as autoridades.

O plano lançado pelo governo tem como principais metas a ampliação da compra de preservativos femininos, de quatro milhões, em 2007, para 10 milhões, em 2008; a duplicação do número de mulheres que fazem teste anti-HIV de 35% para 70%; a eliminação da sífilis congênita e o investimento em pesquisas.



 

Copyleft 2006 Beijodarua.com.br - É autorizada a reprodução do conteúdo desta página em
qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e autores.