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MV Bill abre o verbo na Daspu

Família, educação e políticas públicas podem ajudar a enfrentar drama dos falcões

Flavio Lenz

18/5/2006, 1h30

O debate era sobre homens e meninos. E foi. Mas mulheres e mães também foram tema de MV Bill, na noite Daspu e Davida, na sede da ONG criadora da grife, no Rio. Com febre de 40 graus, Bill chegou quase no fim do documentário “Falcões - Meninos do Tráfico”, mesmo título do livro que ele fez questão de lançar para prostitutas, aliados e simpatizantes. Já eram oito e meia da noite desta quarta-feira.

Cinqüenta pessoas lotaram o avarandado, entre elas muitos jornalistas. Gabriela Leite, coordenadora de Davida e Daspu, agradeceu a iniciativa do rapper. Ele, por sua vez, agradeceu o aceite do “autoconvite”. E abriu o verbo. Aí vai um pouquinho.

Mulheres

“Mãe é mãe em toda parte. E as mães da favela nunca aparecem. Elas são guerreiras. Muitas cuidam melhor dos filhos dos outros do que dos seus. Várias delas levam marmita para os filhos no tráfico, e recomendam cuidado. Outras vendem café na boca e afirmam que tudo o que tem , como casa e mobília, vem do comércio de drogas. Aí fico pensando se elas estão alimentando a família ou o tráfico. Quando o dinheiro é usado para uma boa ação, todos querem”.

Diálogo em casa

“Acho que o mais importante é as mães terem diálogo com os filhos. Algumas temem assuntos como sexo, camisinha, maconha, achando que protegerão os filhos quando não falam disso”.

Meninas

“Falamos pouco delas, porque são meninos e homens, principalmente, os que estão lá. Mas aos 15 anos, como eu, tanto meninos quanto meninas precisam buscar recursos para viver”.

Comunidade

“Na Cidade de Deus, onde moro, tem o comércio de drogas sem divisão de traficantes. Quando tem tiro, é polícia e bandido”.

Bandidos

“Todos os que deram entrevista para o filme querem solução. Muitas vezes o crime mostra mais interesse em tirar meninos do tráfico do que qualquer outro setor da sociedade”.

Polícia

“Já ouvi da delegada Marina Magessi o seguinte: ‘Bill, cansei de ir atrás de bandido no morro. A solução é impedir que eles nasçam’. O caveirão, então, não dá nem pra explicar a sensação, o ar fica irrespirável. Chega na comunidade como se todo mundo fosse marginal. Eles põem no alto-falante: ‘Homem de preto/qual é sua missão/entrar na favela/botar corpo no chão’. Aí, tudo é possível.”

Política pública

“Levar caveirão pra favela não é política pública. Política publica é levar educação, saúde, renda e emprego. Tudo o que falta na favela. Sem tudo isso o futuro é improvável. Mas o governo só leva repressão”.

Lula e as reuniões

“Estive com Lula e 11 ministros. O da Educação disse que há programas para crianças no campo e para outras. Mas não sabem como lidar com as crianças no tráfico, para elas não há política. E concluí que não dá para esperar tanta reunião. Falta vontade política, falta vergonha. Só um conjunto de ações pode ajudar. Não só governo. Toda a sociedade tem que se envolver, participar”.

Política de drogas

“Não acredito que a legalização vá diminuir a violência. Todos os meninos que entrevistei entraram para o tráfico por dinheiro, não por vício. Mas não acredito também em botar na cadeia, ao lado de seqüestrador, quem tem um baseado. O problema é que o branco vai para a clínica e o menino preto vai preso. São dois pesos e duas medidas”.

Saldo negativo

“Levantar essa discussão e resgatar um ou dois jovens ainda é muito pouco para quantos querem entrar. O saldo ainda é negativo”.

Daslu

“Há 20 anos discuto de favela pra favela, onde não há recursos para dar um passo de trnasformação. Agora vou também aos ricos, como fui na Daslu. Disse a eles: ‘Ou vocês dividem a sua riqueza ou vão continuar a conviver com a pobreza que ajudaram a criar’. Um herdeiro do banco Itaú me disse: ‘Depois de ouvir você, nunca mais vou pensar no social da mesma forma’. E não sei bem o que isto quer dizer.

Assalto aos ricos

“Semana que vem vou conversar com empresários de São Paulo. O maior assalto da favela será conseguir dinheiro dos ricos”

Daspu e Davida

“Já queria vir aqui há muito tempo. Como no caso dos falcões, não vejo investimento social na área da prostituição. Ganhar este tempo com vocês é muito bom. Agradeço terem aceito o meu autoconvite”.

Nesta sexta-feira, acredite, tem mais. Aqui, no “Beijo da rua”.


 

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