Plantão


O último retoque da maquiagem e a medição final de luz


Bruna Surfistinha:
“A teoria na prática é outra”


Ex-garota de programa grava campanha
de prevenção de Aids para a ONG Davida e diz que
não dá para confiar no parceiro fixo


Flavio Lenz, texto e fotos

16/2/2006

Raquel Pacheco, que foi Bruna Surfistinha durante três anos, gravou esta semana no Rio uma campanha de prevenção de Aids que leva a assinatura da ONG de prostitutas Davida. No set de filmagens, uma bela casa no bairro do Joá, na Zona Sul, Bruna recebeu o "Beijo da rua" para uma entrevista exclusiva, pouco antes de falar o texto diante de uma câmera e muitos assistentes.

Tranqüila, enquanto era penteada e maquiada, ela disse ter gostado do roteiro porque ele quebra um tabu da prostituição, o de que “a garota de programa não se cuida”. Além disso, achou legal o texto incentivar os homens e “as mulheres que não são” prostitutas a usarem preservativo. “Eu quero que a campanha atinja todas as pessoas, independente de sexo, de idade”.

Na gravação, vestindo uma blusinha cor-de-rosa levemente decotada e calça cinza, bem clean, Bruna olha diretamente para a câmera, falando para o público olho no olho, e conta resumidamente sua história. Três anos como garota de programa, “cinco programas por dia, cinco vezes por semana”, sempre se cuidando, usando camisinha. No final, lembra que, com isso, ela também protegeu todos os homens que atendeu e até as esposas deles. A campanha tem o apoio do Ministério da Saúde e vai ao ar antes do carnaval.

Autora do best-seller “Doce veneno do escorpião”, Bruna elogiou o trabalho de Davida e da grife Daspu, criada pela ONG, e até ficou de pensar um modelito. Quando falou de parceiro fixo, foi mais um vez diretíssima: “Mesmo com um companheiro fixo, não dá para confiar cem por cento”.

Abaixo, a íntegra da entrevista.

Você está pronta para a gravação, texto passado e tudo?
- O texto eu decorei em casa e agora estou bolando a fala, a maneira que eu vou falar.

O que mais te atraiu nessa campanha?
- O que mais me atraiu foi o fato de conscientizar as pessoas, porque tem vários tabus da prostituição, e um deles é que a garota de programa não se cuida. Mas eu sempre achei o contrário. A garota de programa se cuida tão bem ou até melhor do que muitas mulheres que não são. Eu sempre me cuidei, sempre me preocupei com a saúde, porque em todas as profissões é preciso ter saúde, é essencial. Mas para a garota de programa, algum problema no corpo, de saúde física, não dá mais para continuar. E mesmo porque eu sempre fui muito consciente de que não ia ser garota de programa por muito tempo. Que um dia eu ia conseguir sair dessa vida. E isso também me incentivou a me cuidar.

E o texto dessa campanha tem tudo a ver, é direcionado a essas outras mulheres, às casadinhas...
- Isso, é...

O fato de a ONG Davida estar assinando essa campanha também foi um estímulo para você aceitar fazer? Você até já falou no seu blog da Daspu, a grife da ONG.
- Inclusive eu conheci a Gabriela Leite e a Doroth de Castro (ambas de Davida) num programa de TV do Leão em que estivemos juntas. E a Daspu achei também uma iniciativa muito bacana da ONG Davida. Não para fazer apologia, porque eu sei que a ONG não faz apologia da prostituição. Mas como uma forma de respeitar as garotas se programa, de protegê-las. Acho a forma da Daspu, de ter criado a loja de roupas, tudo muito bacana.

Se quiser dar algumas sugestão de modelinho, tenho certeza de que seria muito bem-vinda na Daspu.
- Boa idéia, vou pensar. Agora não tenho nada em mente, vou pensar sim e ajudo no que puder.

Você acha que essa campanha vai atingir homens, além das mulheres?
- Eu quero que atinja todas as pessoas, independente de sexo, de idade.

São os homens que ainda têm mais resistência ao preservativo no meio da prostituição, não é isso?
- É, isso é verdade. É bom também o homem se preservar, ainda mais tendo uma companheira fixa, porque ele não vai proteger somente ele, protege também a esposa, a família, a companheira, que é essencial.

Você acha que as pessoas que têm parceria fixa podem dispensar a camisinha?
- É bem complicado. Na teoria deveria ser assim. Mas acho que mesmo com um companheiro fixo não dá para confiar, confiar cem por cento. Na teoria seria fixo, mas na prática, infelizmente, não é possível confiar tanto.



 

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