Plantão


Cenas de Venezuela em Caracas

Uma noite quente entre putas, taxistas, boêmios, e controladores sociais

Flavio Lenz, de Caracas

29/1/2006

O garçom puxa conversa enquanto serve as últimas e deliciosas peças carnívoras de lomo e lomito. Fica sabendo que somos do Brasil e corre a dizer o que faz: além de trabalhar como mezonero na churrascaria, em tempo integral, dirige um mototáxi por mais 3 horas diárias. “Sou um controlador social”, fala assim na lata, com a maior naturalidade.

Agora puxo eu a conversa, do que se trata?. Ele diz que circula pela cidade “observando” tudo, para, se necessario, reportar a polícia. Nao explica, contudo, o que denunciaria, a nao ser “alguna desorden”, sem maiores detalhes. Mostra meio rapidamente uma carteirinha da Alcadia (prefeitura) de Caracas e, perguntado, informa que recebe salário pelo “serviço”.

O garcom se afasta. Eu e Lucia Paz, que veio de Porto Alegre ao FSM representar a Rede Brasileira de Prostitutas, terminamos o jantar um tanto assustados e preocupados com o que ouvimos. Conversamos baixo. O garcom volta e diz que sairá daqui a pouco, oferecendo-se para nos acompanhar. Faltam 20 minutos para as onze da noite deste sábado 28, horário em que fecha o metrô. Sugiro a Lucia ir embora, sem esperar o “controlador” (é tentadora a idéia de seguirmos pela rua com ele, mas, ao mesmo tempo, conhecemos pouco a cidade e toda a conversa deixou uma sensaçao de ameaça e controle… claro) Decidimos ir sem ele e conseguimos pegar o último trem do metrô.

Na muvuca do FSM

Sao onze e pouco e chegamos de Chacaíto ao Centro, onde estamos hospedados, bem pertinho da maior concentraçao e muvuca do FSM. No Hilton Hotel se realizam muitas das atividades, e boa parte da imprensa trabalha aqui, na sala destinada a nós, com 60 computadores, ou em salas exclusivas de grandes veículos. A 300 metros, no Analco Hilton, também há sala de imprensa, mas exclusiva para rádios comunitárias. No Teatro Teresa Carreño, que tem grandes espacos cobertos e liberados, centenas de pessoas vendem e compram de tudo (como nas ruas próximas). Camisetas e bonés de Hugo Chávez e da República Bolivariana de Venezuela lideram em quantidade, nas banquinhas improvisadas ou no chao. Bolsas, broches, bonés e camisetas do Fórum Socuial Mundial vêm em seguida. Finalmente, as artesanias, de toda parte.

Pertinho do Teatro, uma pequena praça sedia toda noite eventos musicais. Neste sábado, para minha suprema vergonha, dois jovenzinhos de Manaus gritam estridentemente cançoes de Ivete Sangalo (tipo “poeira ô poeira” ), sem empolgar ninguém. Um horror! Foda é que na noite anterior um grupo de mulheres argentinas deu um show de reggaeton, um som caribenho (nasceu no Panamá ou Porto Rico) meio hip-hop, sensual e dançante, que pela primeira vez me levou a pedir um autógrafo. Tudo bem, as argentinas eram bem interesantes, com lindas roupas coloridérrimas e instalaçoes nos cabelos. Mas também cantantes de primeira. (Ivete Sangalo, aiiiiiiiiiiiiiiiiii. E “Actitude Maria Marta”, Viva!)

O ódio do taxista

Bem. Depois dessa tortura, e ainda com o controlador na cabeça, vamos a uma cerveja, num botequim de esquina perto de nosso hotel. Lucia puxa conversa com os taxistas que param ali para comer ou beber. Pergunta se o hotelzinho bem defronte ao botequim é de programa. A resposta é positiva, como o faro de Lucia já havia apurado. Um dos taxistas é bruto e fala mal de prostitutas. “Essas aí defronte estao velhas, muito usadas, sao cloacas”, diz rindo e com escárnio. Lucia e eu nao estamos a fim dessa conversa babaca com um taxista venezuelano à meia-noite. Nos voltamos entao para o outro, cabelos grisalhos, supergentil, bem-humorado e conversador como a grande maioria dos caraqueños. E ele dá o mapa da prostituiçao na cidade, ruas e bordéis, contando causos, até que…

Até que o papo chega ao FSM e à política. Primeiro, fala mal dos jovens estrangeiros que circulam pela cidade e nao têm grana e usam drogas: “Para mi son animales”. Epa! Que merda! Eu faço minhas ponderaçoes sobre os jovens e dois outros taxistas, na faixa dos 20-30, brincam com o preconceito do colega. Ele se desarma. Em seguida, porém, vem a política. E aí o taxista grisalho demonstra todo o seu ódio a Chávez, fala em fraude eleitoral, em ditadura disfarçada, em controle de imprensa, prevê revolta e golpe em breve. Pergunto dos tais “controladores”. Ele confirma que existem e que ganham salário. “Estao aí para escutar a conversa das pessoas”. Afinal ele se afasta e ficamos batendo papo com os divertidísimos e gozadores jovens, falando das “aspas” (cornos) de todo mundo – muita gente daqui é assim, incrivelmente simpática.

No bordel, com liberdade de expressao

Mais um pouco e nos vamos ao bar do tal hotel, que se chama Ribot, com as três últimas letras do neon apagadas. Balcao de tijolinhos a esquerda da porta, algunas mesas a direita, com maquinas de música encostadas na parede, tocando, claro, salsa. Uma porta em arco numa linha reta logo após o balcao leva a uma sala escura, com uma luzinha de nada. A entrada do hotel é pela rua, porta contígua ao bar, mas pode haver uma circulaçao interna pela tal sala, nao vi.

Nos apresentamos a uma senhora, dona do local, que está acompanhada de seu homem. Eles têm mais de 40 anos e acabam de ter um filho, que ela mostra depois em uma foto. Mulheres conversam entre si e os homens, idem. Norman, técnico de informática, é um militante chavista, muito articulado e inteligente, que fala maravilhas do governo. Viaja muito – acaba de voltar da República Dominicana, onde esteve em uma delegaçao de 12 pessoas – e por isso comenta sobre diversos países da América Latina, desde México ao Chile, incluindo Brasil. O povo de cada qual, a situaçao política, o que isso significa para a América e para a revoluçao ou o processo bolivariano, como se diz aqui o tempo todo. Lá pelo meio do papo, garante: “Aqui existe total liberdade de expressao”.

Afinal vem Rosa, uma prostituta venezuelana muito bonita, na linda cor de jambo, mistura de índio e negro. Lucia e ela conversam um bocado, ficam amigas. Depois entro no papo e vem a confirmaçao do controle sanitário nessa terra, nao obrigatório, segundo Rosa, mas necessário para “todas las mujeres, no solo prostitutas”. E as outras, fazem? “No, no”, responde. É mensal, em postos de saúde. Aliás, já nos tinham falado do controle Jennifer e Coral, que fazem ponto nas calçadas da grande Avenida Libertador, também perto daqui. A diferença é que donas de bordel exigem ver o resultado dos exames das chicas, que incluem o HIV. Rosa acha bom o controle e garante que usa camisinha direto. Em seguida, vamos salsar.

Daspu e Bolívar com vigiar e informar

A noite está tao interessante, instrutiva e diversificada que merece mais uma cerveja, aquela da mentirinha. (A boa daqui se chama Solera, 6 graus. A de garrafinha verde, comum. Tem muita cerveja “ice”, ruizinhas que só, e Brahma Light é figurinha fácil.) Dessa vez vamos ao bar do lado daquele em que param os taxistas. Tudo pertinho, que bom, só atravessando a rua pra lá e pra cá. Pedimos licença a um casal bem jovem para sentar na mesa de quatro lugares e ele exclama, ao olhar para a minha camiseta: “Daspu”? Bem, sabe como é. Brasileiros em toda a parte conhecem a Daspu, têm a maior simpatia, acham o máximo. Antonio Brasiliano, fotógrafo, já clicou como assistente para a Daslu, e nas Ilhas Mauricius. Fantástico. Combinamos para breve umas fotos Daspu em Sao Paulo.

Já sao quase cinco horas da manha. Aparece Andreas Behn, jornalista e marido de Friederike Strack, colega de Davida que também está aqui trabalhando nos temas da prostituiçao. De repente, um venezuelano negríssimo da Serra, que conhece Antonio, senta e começa a falar discursando, num sotaque difícil. Armando está com uma estrela do PT na camisa e o papo, claro, é política. Quando encontro um tempinho, entre uma análise da conjuntura continental e outra, pergunto a ele, de lado, sobre os controladores sociais. Surpresa? Armando é um deles. “Fazemos isso para vigiar e informar”, diz convicto. “Com os estrangeiros também?”, pergunto. “Com vocês a gente se dedica mais a informar”.

Barra. Barra. Barra. Cerveja, cigarro, cerveja. Madrugadíssima. Mas é preciso aproveitar, saber, ouvir, entender. “Em que momento o povo se empolgou com Chávez? O que fez a diferença?” Armando fala de história. Ele conta que ao rememorar sempre o caraqueño Simon Bolívar, o libertador, ao falar de uma nova liberdade, da integraçao continental, ao levantar nesse contexto a luta antiimperialista, ao denunciar a pobreza como resultado disso tudo, Hugo Cháves Frias fez o o povo entender o que passou, o que se pasa e o que pode vir adelante. (E é claro que há também resultados econômicos, como a melhoria do poder aquisitivo dos pobres.)

O processo e o sintoma de uma outra história

A Venezuela é empolgante. Muita gente está vivendo intensamente o “processo bolivariano”. Os discursos de Chávez sao cristalinos na apresentaçao de problemas, metas, idéias, sejam locais ou nao.As pessoas sentem-se protagonistas, “con poder en las manos”. A busca de inspiraçao histórica, o resgate desse homem e desse período que os brasileiros pouco conhecemos, reforça o conjunto. As pessoas também estao informadas sobre os demais países E a idéia de uma integraçao, de um bloco forte, faz o maior sentido – deixando de lado a preguiça, o comodismo e o medo.

Mas tem a sociedade dividida, e muito, visível nas esquinas. Tem a ferrenha e diária batalha entre a imprensa oposicionista e governista. Tem o oportunismo em momentos como esse, do FSM.

E tem acima de tudo, ou como um sintoma, o controlador social. Eles sao formais, nao há segredo, como também em outras partes do mundo. Mas conhecê-los é uma outra história.



 

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