Plantão


Daspu: uma puta grife

Orlando Alves dos Santos Junior

22/1/2006

Era uma puta noite de verão carioca. O cenário? Sexta feira treze, lua cheia. Mas não era uma noite de mistério, mas de magia. Fazia muito calor e havia muita gente naquela estreita rua de paralelepípedos da Praça Tiradentes. Era noite de mais um desfile da Daspu, embalado pelo clima da realização do Fashion Rio – Outono/Inverno 2006, realizado bem perto dali, no Museu de Arte Moderna. A Praça Tiradentes fervia.

Foi um evento da diversidade, reunindo pessoas de todas as idades e etnias, estudantes e trabalhadores, gente de todos os sexos e posições políticas. A imprensa nacional e internacional estava lá, diversas pessoas do mundo da moda e artistas também. Neste universo, vale destacar a presença e o brilho da atriz Betty Lago, que abraçou a causa e manifestou seu apoio para a iniciativa da ONG Davida. O clima era de êxtase e alegria. A Daspu é o símbolo da moda carioca: irreverente, livre, engajada, simples e democrática.

Foi um puta desfile. No chão, um tapete lilás enfeitado de pétalas de rosas. Como verão é samba e carnaval, não podia faltar a animação do bloco Prazeres Davida, agitando a galera que ansiosa esperava o desfile mais badalado do verão. O parangolé do Projeto Hélio Oiticica deu um charme todo especial com sua linguagem irreverente e criativa. E neste ambiente as putas brilharam, mostrando que “mulheres más vão para qualquer lugar”. Agora o lugar das putas é na passarela, na moda, no coração dos cariocas e do Rio de Janeiro. Depois da Daspu, a palavra fashion ganhou um novo significado, com uma moda para as pessoas como eu e você, com um corpo como o meu e como o seu, para gente que acredita nas pessoas livres e sem preconceitos. Caminhando sobre o tapete lilás coberto de pétalas de rosas, sob a lua cheia que iluminava a todos, as putas ensinavam que não pode existir uma sociedade democrática sem respeito a todas as pessoas, sem um corpo livre, sem liberdade.

É uma puta grife. A linha de camisetas “ativismo” lançada no desfile encantou. As camisetas são bonitas, criativas, bem humoradas, e expressam um engajamento pela cidadania. O resultado não podia ser outro: a galera gritava Daspu! Daspu! Daspu! Enquanto as meninas desfilavam, qualquer um podia sentir a alegria no coração daquelas mulheres maravilhosas. Quando o desfile acabou, era evidente a emoção de todas elas. Mal acabou de sair a primeira linha da grife, parece que todos nós já estamos ansiosos à espera do próximo lançamento. Queremos vestir as roupas do ativismo, do lazer, da batalha, do prazer e da folia.

A iniciativa da ONG Davida é um ensinamento. A idéia mostra audácia, criatividade e compromisso, trabalha a dimensão do público e do privado, enfrenta estigmas e preconceitos, aposta em valores da liberdade e da democracia. A Daspu também expressa uma forma de engajamento das putas, que se expressa na organização de um novo sujeito social. E até mesmo o público é transformado de espectador em ator, porque é chamado a se engajar, a sentir, a se posicionar. Vestir uma camiseta da Daspu é isso, é tomar posição.

Por isso tudo, a ONG Davida arrasou! Definitivamente a Daspu é sucesso. Daspu é verão, é Rio de Janeiro, é fashion, é popular, é liberdade, é alegria, é posição contra o preconceito. E como linha de moda, a Daspu encanta com seus modelos, sua criatividade, sua irreverência, sua beleza. A Daspu é a roupa do verão, do outono, do inverno e da primavera carioca. Viva a Daspu!

Orlando Alves dos Santos Junior é sociólogo, diretor da ONG Fase


 

Copyleft 2006 Beijodarua.com.br - É autorizada a reprodução do conteúdo desta página em
qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e autores.