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Abril e maio de 2006 |
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Nova York - Finalmente estou de volta, chegando ao meu amado Rio de Janeiro. Foi uma viagem cansativa. Muitas reuniões e negociações. Estive na Assembléia Geral da ONU que avaliou os avanços e retrocessos no combate à epidemia da Aids. Depois de vários dias e madrugadas de negociações entre os países membros, chegou-se a um relatório que em alguns aspectos, principalmente no que se refere a assistência e tratamento, avançou em comparação ao relatório da assembléia realizada em 2001.
Mas no ponto de vista da prevenção, o que nós vemos na maioria dos países, inclusive latino-americanos, fora Brasil, Argentina e México, é ainda uma grande dificuldade de lidar abertamente com a questão da Aids e sua complexidade, já que a prevenção mexe primordialmente com a questão da sexualidade.
Fui convidada a participar como palestrante em uma mesa redonda que aconteceu no calor de todas as discussões a respeito da prevenção. As palestras e falas em uma assembléia da ONU são extremamente formais, mas eu comecei dizendo que não escrevi previamente minha fala e que estava optando pela emoção. Tento aqui reproduzir o que disse:
“Quero falar com toda a minha emoção. É de um valor simbólico imenso eu, uma prostituta assumida, estar aqui na ONU falando aos países membros sobre como pensamos a prevenção. Mas me sinto numa situação estranha: ao mesmo tempo que estou aqui, para a grande maioria dos países, eu e todas as prostitutas do mundo não existimos, já que a tendência da reunião é não mais citar explicitamente, nos documentos oficiais, trabalhadoras do sexo, que é o termo oficial e politicamente correto para designar prostitutas. Esclareço que uso o termo prostituta por opção política de luta contra o estigma. Pelo caminhar da reunião nos parece que a tendência será não mais nomear nos documentos prostitutas, homossexuais, travestis, usuários de drogas, mas juntar todos na denominação genérica de ‘populações mais vulneráveis ao vírus’.
“Ora, o que são populações mais vulneráveis ao vírus? Na minha compreensão, essa frase tem o mesmo sentido de grupos de risco. Mudou-se o nome, mas permanece o antigo sentido preconceituoso para nos designar frente à epidemia. Afinal, se somos grupos de risco, o restante das pessoas não é responsável pela transmissão do vírus. Sinto muito que um conceito metodológico tão complexo como o de vulnerabilidade passe a ter um sentido tão pobre, preconceituoso e fundamentalista. A luta contra a Aids exige de todos nós menos conceitos morais e enfrentamento maior de nós mesmos. Vulneráveis somos todos. Cada grupo de pessoas tem suas próprias vulnerabilidades e dificuldades para enfrentar a prevenção. Mulheres e homens casados são vulneráveis quando acreditam na fidelidade e não a exercem. Os que praticam a abstinência são vulneráveis já que ignoram o desejo. Nós, os que acreditamos que a única prevenção possível é exercer nossa sexualidade usando preservativos, também temos nossas vulnerabilidades, que variam de grupo a grupo. Portanto, falar sobre vulnerabilidade significa contemplar aspectos sociais, econômicos, religiosos e culturais inerentes a cada grupo social.
“Nós prostitutas ficaremos muito tristes se houver retrocesso a tudo o que avançamos na luta contra a Aids, mas se assim acontecer quero deixar claro a todos os países membros aqui presentes que continuaremos nossa luta contra o preconceito e o estigma, e manteremos nossa convicção de que a única prevenção possível diz respeito ao uso do preservativo em todas as relações sexuais. Muito obrigado.”
O texto acima é o que eu disse um dia antes da resolução final sobre o documento oficial. Infelizmente, venceu o fundamentalismo liderado pelos Estados Unidos com apoio de muitos países africanos, árabes, etc. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, fez um discurso contundente na plenária final reafirmando a posição brasileira. Fiquei muito emocionada, chorei e me senti orgulhosa de nascer e viver nesse país tão sofrido e ao mesmo tempo tão moderno.
Voltei com a esperança de que, assim como a década de 60 relativizou nossos preconceitos morais, outras décadas virão menos escuras e as pessoas perceberão que viver é também aceitar o prazer dos nossos corpos. Para além da esperança, tenho também a certeza de que o Brasil continuará a desenvolver uma política responsável, chamando pelo nome prostitutas, homossexuais, travestis, usuários de drogas. E, sobretudo, sentando-se à mesa com todos nós.
