Setembro e outubro de 2005


Prostitutas diante da parede do posto João de Brito pintada por elas. No posto de Saúde, referência para o estudo epidemiológico e oficinas de Prevenção são atividades freqüentes dos participantes do Encontros.


Encontros na fronteira

Profissionais do sexo, servidores públicos, médicos e pesquisadores viram parceiros em direitos humanos, cidadania, saúde sexual e reprodutiva

Flavio Lenz

Corumbá viveu uma noite histórica na quarta 19 de outubro. Em um evento com o curioso mas certeiro nome de “Devolutiva”, parceiros, responsáveis e voluntários do Projeto Encontros, destinado a profissionais do sexo, apresentaram os resultados de quatro anos de trabalho. E eles não são poucos. Iniciado apenas como um estudo epidemiológico, com ações de prevenção, diagnóstico e assistência em saúde sexual e reprodutiva, ele ganhou uma dimensão muito maior, contribuindo para a mobilização social e a promoção de direitos humanos e cidadania na cidade de fronteira do Mato Grosso do Sul.

O ponto alto foi a apresentação da nova associação de prostitutas da cidade, a Dassc - Dignidade, Ação, Saúde, Sexualidade e Cidadania. Entre lágrimas, a presidente, Kelly Patrícia Vieira Guerra, disse o seguinte:

“A máscara caiu. Antes, queríamos camuflar a prostituição, só falando da comunidade. Agora vamos rever o estatuto que já tínhamos escrito, porque ele está errado, e fazer outro. O planejamento estratégico que fizemos abriu a nossa cabeça. A gente estava no casulo e agora é borboleta. Eu estou me sentindo uma borboleta. Além de tudo, já viramos parceiros da Rede Brasileira de Prostitutas”.

Viu só? É pouco? Não, é raro. Como raro é um projeto com amplas parcerias, entre governos de todos os níveis, organizações internacionais e sociedade civil brasileira, cada qual com distintos profissionais. O evento, no auditório do Espaço Educacional de Corumbá, foi na verdade mais um começo. Para ter certeza, leia o que disseram dele e do projeto os outros principais participantes, ainda no calor da hora. E confira toda a história nesta reportagem especial.

Quando o fim é só o começo

Oficinas de confecção de roupas, de sabonetes e chocolates eróticos, de velas e flores. Uma barraca na feira semanal de artesanato. Sessões de cinema. Festa, muita festa Rosa Choque, com apresentações de teatro, música, dança e moda. Participação em manifestações públicas. Reuniões de cidadania, direitos humanos e prevenção em ruas, bares e boates de programa. Um vídeo/DVD. Materiais educativos. Um estudo sobre identidade e mobilização social. E uma associação de prostitutas. Ah, sim, claro: uma pesquisa sobre doenças sexualmente transmissíveis entre profissionais do sexo.

Se você começar a leitura pelo fim do parágrafo acima - a pesquisa -, vai estar no começo dessa história. Afinal, foi pelo estudo epidemiológico que tudo se iniciou. Mas do que se está falando? De uma pequena grande revolução em Corumbá, cidade do Mato Grosso do Sul separada da Bolívia por um rio que se chama Paraguai.

Do começo, então. Em 2001, a proposta era fazer um diagnóstico a respeito de aids em cidades de fronteira, entre elas Corumbá. Os parceiros, o Programa Nacional de DST e Aids e a Population Council, uma ONG internacional. Verificou-se, então, a necessidade de ações de prevenção com profissionais do sexo.

Em 2002, um projeto começou a ser desenhado, buscou-se financiamento, capacitações foram implementadas e a proposta de pesquisa foi aprovada em comitês de ética. Muito trabalho até aí, muito mais pela frente.

No ano seguinte, finalmente, o projeto foi a campo. Não sem antes ampliar as fronteiras de suas parcerias: a Secretaria da Saúde e o Programa de DST/Aids de Corumbá, o Programa de DST/Aids do Estado de Mato Grosso do Sul, a Pathfinder. Ah, quase esquecia de novo: a Rede Brasileira de Prostitutas. Todos esses parceiros formando um comitê assessor. Do que mesmo? Claro: do Projeto Encontros.

Projeto tem adesão de 420 voluntários

O Projeto Encontros, que pretendia também reduzir o risco de DST entre profissionais do sexo, teve a adesão de 420 voluntários. Com idade média de 26 anos, os mais jovens com 18 e os mais velhos com 57 anos, a grande maioria foi de mulheres (91%), mas também houve homens (5%) e travestis (4%). Foi no Posto de Saúde João de Brito que se desenvolveram as ações diretas do estudo epidemiológico. Os participantes tiveram acesso a aconselhamento, exame clínico direcionado para sinais e sintomas de DST, coletas para investigação de sífilis, gonorréia, clamídia e tricomoníase. O acompanhamento dos voluntários foi mensal e as consultas de coleta de dados ocorreram a cada três meses.

Muitos participantes nunca tinham feito exames para detecção das DST e usavam preservativo esporadicamente. Depois do projeto, passaram a freqüentar os postos de saúde do município, a fazer exames e a usar camisinha com freqüência.

Na próxima edição: a oficina de moda, a feira de artesanato, as festas e uma noite de batalha na chácara

 

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